Que se Cancele Darwin: Esboço de uma Epistemologia do Cancelamento

Escrito em colaboração com Vitor Paixão

”Apesar de nossa inabalável admiração por Darwin, devemos relegar a visão vitoriana (incluindo suas versões recondicionadas que emergiram no século XX) às veneráveis salas dos museus, e explorar as consequências de nossa mudança de paradigma.”
-Eugene Koonin, The Logic of Chance (introdução, ivv).

Em meados de janeiro deste ano, uma polêmica instaurou-se com a popularização de um artigo de três meses antes publicado pela filósofa Subrena Smith (Smith, 2019). De nome “Is Evolutionary Psychology Possible ?”, o artigo levantava questionamentos sobre os limites epistemológicos da psicologia evolutiva, e questionava a consistência (e possibilidade) do corpo de princípios explicativos da teoria, como o do EEA (“Evolutionary Environment of Adaptation”). Como já era de se esperar, o artigo levantou uma série de polêmicas sobre o aspecto científico da psicologia evolutiva, mas houve também um outro foco importante na discussão: o social.

Desse ponto de vista (social), diversos autores (Pinker, 2020 e Coyne, 2020) questionaram a motivação de Subrena para a escrita do artigo, invocando o seguinte raciocínio: tal publicação teria um viés de crítica social (ou, utilizando o vocabulário dos críticos, de justiça social) ao invés de uma crítica científica rigorosa aos pressupostos teóricos e empíricos da psicologia evolutiva. Ao ignorar o conteúdo epistemológico das críticas da autora, que foram respondidas de forma subpar, os críticos advogaram que o artigo em questão tinha como motivação e fundamento uma agenda de censura em nome de ideias de justiça social.

Longe de ser um evento isolado, tais acusações de censura têm sido comuns nos últimos meses. De fato, numa manifestação recente de tais fatos, varias discussões e iniciaram em relação a uma tentativa do Museu de História Natural (ver [4]) de revisar a exposição sobre Darwin com o objetivo de suprimir itens que seriam considerados ”ofensivos” por seu passado colonial (relacionado à figuras racistas como Carl Linnaeus e Joseph Banks). Tal debate tem ocorrido sob a rubrica da ”Cultura do Cancelamento“, onde certas figuras são relegadas ao ostracismo com base em seus antecedentes ideológicos relacionados ao racismo, machismo e similares.

Naquilo relativo ao impacto do cancelamento de tais figuras, é preciso se perguntar o seguinte: qual o legado epistemológico do cancelamento ? Ou seja, o quanto a biologia evolutiva sofreria com a supressão de nomes como Darwin, Fisher, ou mesmo do campo da psicologia evolutiva como um todo (Pinker, Cosmides, Buss, etc). Adiantando um pouco nosso posicionamento, mas já estabelecendo um locus de crítica, acreditamos que a biologia evolutiva conseguiria, sem problemas, sobreviver com tal ostracismo.

Se pressupormos que realmente é possível “cancelar”, ou relegar ao esquecimento, esse grupo de autores considerados problemáticos do ponto de vista social, ainda assim seria possível argumentar que a biologia evolutiva não sofreria nenhum dano posterior senão a perda de alguns heróis (de alguns…). Além disso, dados os problemas ideológicos relativos a estas figuras, como a vinculação ao colonialismo, ao racismo e ao sexismo, é questionável se elas deveriam realmente ter um posto de tamanha relevância e adoração social como este. Mas, voltando ao nosso ponto do início do parágrafo, argumentamos que a biologia evolutiva não sofreria nenhum revés epistemológico por duas razões:

  1. Não está claro por qual razão o cancelamento de tais figuras implicaria numa perda de conteúdo de suas contribuições às ciências.
  2. Similarmente, é possível argumentar que não temos razões para acreditar que as contribuições destes nomes seriam insubstituíveis nas disciplinas em questão.

Partindo do primeiro ponto, é evidente que mencionar a vinculação de Darwin ao colonialismo, ou de Fisher com o movimento eugenista inglês, não implica em rejeitar as contribuições de ambos para a biologia evolutiva. Por outro lado, seria possível argumentar que o conteúdo de tais contribuições estaria contaminado com o fundamento ideológico de tais autores. Apesar da razoabilidade de tal argumentação, a biologia evolutiva, e a genética como um todo, sobreviveram a ambas as figuras e adquiriram um estatuto próprio a partir de tais contribuições fundantes. Dessa forma, seria difícil defender a necessidade de rejeitar, junto com tais figuras, suas contribuições epistemológicas. Em outras palavras, e com um exemplo, rejeitar Fisher não seria o mesmo que rejeitar a modelagem, por meio de frequências alélicas, da dinâmica populacional da dominância gênica, algo que surgiu em seus escritos (Fisher, 1922).

Continuando o ponto acima, é possível, e razoável, argumentar que certas contribuições contaminadas de certos aspectos ideológicos problemáticos devam ser sacrificadas junto com seus autores. Mas, este só parece ser o caso quando o conteúdo ideológico problemático faz parte constituinte da fundamentação epistemológica da contribuição, isto é: quando a aceitação de tal contribuição implica na aceitação de princípios ideológicos que sabemos, ou temos boas razões, para tomarmos como falsos. Como exemplo deste fenômeno, podemos mencionar a modelagem de preferências e escolhas na teoria de seleção sexual, que carregada pelo conteúdo vitoriano de sua gênese nos escritos de Darwin, parte primariamente do pressuposto de fêmeas enquanto agentes passivos do interesse e iniciativa masculina. Como sabemos, tal pressuposto mostrou-se empiricamente falso (Milam, 2010). Desse modo, é razoável, nos princípios expostos acima, que rejeitemos o conteúdo “científico” de tal contribuição com base no resultado de se assumir como hipótese de modelagem um preconceito social estabelecido em um contexto passado.

Nestes termos, temos uma ideia geral de quando seria necessário rejeitar contribuições de um certo pesquisador que venha a ser cancelado. A teoria evolutiva, como proposta por Darwin, não sairia intacta desta empreitada de cancelamento, mas de maneira nenhuma precisaria ser rejeitada em sua totalidade. A proposta de seleção natural, como exposta no Magnum Opus de Darwin (Darwin, 1859), seria um bom exemplo daquilo que não satisfaria o princípio de rejeição formulado acima e dessa forma passaria incólume de um possível cancelamento de Darwin. É importante ressaltar que aquilo que seria levado junto tal cancelamento darwiniano não é, de forma nenhuma, insubstituível. Ao contrário: ainda no contexto do exemplo da seleção sexual darwiniana, a rejeição dos pressupostos exemplificados acima não impactaram numa morte da área, mas sim no renascimento científico desta com maior poder e consistência científicas (ver, dentre outros, Rougharden 2013; Hoquet 2020; Villegas 2018). Similarmente, podemos comentar sobre as contribuições de Fisher na estatística e na genética de populações: de fato, utilizar máxima verossimilhança ou condicionar em estatísticas ancilares pouco refletem, e pouco foram afetadas, pelo cancelamento de Fisher em relação ao seu passado eugenista. Também é importante notar que nossa crítica não é restrita à biologia evolutiva, ou mesmo à biologia, pois considerações similares sobre o conteúdo epistemológico de cancelamentos podem ser feitas em outras ciências.

Partindo para o segundo ponto, comecemos com um exemplo clássico dentro da teoria estatística: máxima verossimilhança. De fato, a ideia básica do princípio da máxima verossimilhança, e do uso de estimadores de máxima verossimilhança, pode ser especificada a partir da seguinte definição (ver Schervish 1995):

Def. 1 (Máxima Verossimilhança) Seja X um elemento aleatório com densidade condicional f_{X|\Theta}(x|\theta) dado \Theta=\theta. Se X=x é observado, então a função L(\theta)=f_{X|\Theta}(x|\theta) considerada como uma função de \theta para um x fixo é dita a função de verossimilhança. Qualquer quantidade aleatória \hat{\Theta} tal que:

sup_{\theta \in \Omega}f_{X|\Theta}(x|\theta)=f_{X|\Theta}(x|\hat{\Theta})

É dita um estimador de máxima verossimilhança (MLE) de \Theta.

Daí, segue-se, da definição acima, o princípio de máxima verossimilhança (Casella e Berger, 2002) : se duas amostras de quantidades aleatórias possuem funções de máxima verossimilhanças que diferem por uma constante (em relação ao parâmetro “desconhecido” da distribuição populacional, porque tal constante pode depender das amostras em si), então as conclusões inferidas de cada uma das duas amostras devem ser idênticas.

Para o caso dos estimadores, temos um problema de construção de funcionais da amostra, e para o princípio da máxima verossimilhança, temos uma questão de redução de dados. Ambas as questões podem ser encontradas, de uma maneira ou outra, no trabalho (extremamente original) de Fisher em 1922: ”On The Mathematical Foundations of Theoretical Statistics”. Por outro lado, como a historiografia da estatística demonstra (Stigler, 2007), Fisher não foi o único a pensar sobre estas questões, muito menos o único a considerar a estrutura matemática da maximização de funções de máxima verossimilhança como meio de construção de estimadores estatísticos; como Stigler coloca brilhantemente em seu texto, Gauss, Lagrange, Edworth, Laplace (dentre outros) já haviam considerado tal argumento.

Isso exemplifica algo que começaremos a expor a partir de agora: considerar as figuras científicas canceladas como sendo uma força criadora única, e que sem eles não teríamos ferramentas como a máxima verossimilhança ou a seleção natural, é um erro. De fato, uma construção desse tipo pode ser considerada como um erro de análise histórica gravíssimo. Do ponto de vista estatístico, o matemático Johann Pfanzagl expõe fortemente em seu livro: ”grandes figuras” em estatística, do ponto de vista da construção das práticas e da teoria estatística, foram bem pouco importantes (ver Pfanzagl, 2017).

Um ponto um pouco diferente pode ser feito com relação às contribuições de Darwin. A teoria evolutiva darwiniana estava inserida num contexto histórico específico, do qual ela foi apenas um desenvolvimento. É um erro, considerando o contexto do desenvolvimento científico da época, que era composto de um certo consenso por análises evolutivas de fenômenos físicos, que uma vez excluída a figura de Darwin da história da biologia estaríamos completamente desprovidos de uma análise evolutiva similar e igualmente estruturada. De fato, o exemplo de Alfred R. Wallace é um ponto importante nesta questão, pois este desenvolveu uma teoria evolutiva dita ”darwiniana” independentemente de Darwin. Dessa maneira, devemos pontuar que uma possível exclusão de Darwin de nosso léxico intelectual não nos causaria grande atraso, nem nos deixaria desprovidos de uma análise rigorosa dos sistemas biológicos.

Mas, ainda mais importante que o contrafactual acima, devemos notar que nossa teoria evolutiva corrente deve menos a Darwin do que aquilo que a maioria da tradição tende a creditar a ele. De fato, de acordo com vários autores contemporâneos (Koonin, Stoltzfus, Smocovitis, etc), a biologia evolutiva atual, pelo menos desde o início da década de 60, passou por uma série de transformações que alteraram pressupostos fundamentais da teoria proposta por Darwin, pautada num certo selecionismo de organismos, e pela síntese moderna, pautada numa visão simplista e pouco rigorosa da genética dos organismos e da ação dos processos evolutivos nesta (Stoltzfus, 2017):

”For each of the past five decades, evolutionary thinking has diverged further from the OMS, both into completely new territory, and into territory previously considered non-Darwinian. Advocates of the OMS used caricatures to poison sentiment against “mutationism”, yet since the 1960s, we have increasingly invoked mutation as a source of initiative, discontinuity, creativity and dynamics in ways that recall the thinking of the Mendelians [16]. Likewise, the word “saltation” remains radioactive, but the case for natura non facit salta was never solid [58], and today we know that evolutionary change includes discontinuities due to major-effect mutations. The architects of the OMS poured scorn on “orthogenesis”— at its best, simply a focus on developmental constraints [59]— but failed to establish their conjecture that selection is the sole source of direction in evolution and thus the ultimate source of explanation. Today the influence of mutational biases in diverse taxa is established (e.g., [6062]), and the influence of developmental biases is under investigation (e.g., [63]).”

Similarmente, temos Koonin (Koonin, 2009 [2]):

”The biological universe seen through the lens of genomics is a far cry from the orderly, rather simple picture envisioned by Darwin and the creators of the Modern Synthesis. The biosphere is dominated, in terms of both physical abundance and genetic diversity, by ‘primitive’ life forms, prokaryotes and viruses. These ubiquitous organisms evolve in ways unimaginable and unforeseen in classical evolutionary biology.

…..

The discovery of pervasive HGT and the overall dynamics of the genetic universe destroys not only the Tree of Life as we knew it but also another central tenet of the Modern Synthesis inherited from Darwin, gradualism. In a world dominated by HGT, gene duplication, gene loss, and such momentous events as endosymbiosis, the idea of evolution being driven primarily by infinitesimal heritable changes in the Darwinian tradition has become untenable.

Equally outdated is the (neo)Darwinian notion of the adaptive nature of evolution: clearly, genomes show very little if any signs of optimal design, and random drift constrained by purifying in all likelihood contributes (much) more to genome evolution than Darwinian selection 16, 17. And, with pan-adaptationism, gone forever is the notion of evolutionary progress that undoubtedly is central to the traditional evolutionary thinking, even if this is not always made explicit.

The summary of the state of affairs on the 150th anniversary of the Origin is somewhat shocking: in the post-genomic era, all major tenets of the Modern Synthesis are, if not outright overturned, replaced by a new and incomparably more complex vision of the key aspects of evolution (Box 1). So, not to mince words, the Modern Synthesis is gone. What’s next? The answer that seems to be suggested by the Darwinian discourse of 2009: a postmodern state not so far a postmodern synthesis. Above all, such a state is characterized by the pluralism of processes and patterns in evolution that defies any straightforward generalization.”

Retirada do artigo [5], feito pelo professor E. Koonin

Seguindo este argumento, é necessário nos perguntar: o que perderíamos ao cancelar Darwin ? Não nos parece, nem aos autores acima, que no momento atual da história da biologia evolutiva as contribuições de Darwin sejam insubstituíveis, e nem que elas tenham uma influencia teórica (relevante) da atual prática da biologia evolutiva. Para Fisher, o diagnóstico é similar: considerando as contribuições evolutivas de Haldane, Hogben, Malécot, Kostitzin, Chetverikov, e outros, seria difícil argumentar que as contribuições deste seriam insubstituíveis, especialmente com a ”quebra” recente da dita ”síntese moderna”.

Dessa forma, nosso prognóstico pode ser resumido da seguinte maneira: que se cancele Darwin ! E que, similarmente, não se perdoe Fisher ou qualquer outra figura que possa ser considerada como um locus de racismo, sexismo e todo tipo de ideologia socialmente perniciosa. Mesmo sem qualquer um destes nomes, a biologia evolutiva não apenas ira sobreviver, mas se desenvolverá de maneira muito mais rigorosa e livre de certos pressupostos desnecessários.

Referências:

[1] The Epic Story of Maximum Likelihood – Stephen, M. Stigler,Statistical Science 2007, Vol. 22, No. 4, 598–620 DOI: 10.1214/07-STS249 institute of Mathematical Statistics, 2007.

[2] The Origin at 150: is a new evolutionary synthesis in sight?, Eugene Koonin, Trends Genet. 2009 November ; 25(11): 473–475. doi:10.1016/j.tig.2009.09.007.

[3] Darwinian evolution in the light of genomics, Eugene Koonin, Nucleic Acids Res. 2009 Mar; 37(4): 1011–1034. Published online 2009 Feb 12. doi: 10.1093/nar/gkp089.

[4] Now Charles Darwin gets cancelled: Natural History museum will review ‘offensive’ exhibitions about the Father of Evolution because HMS Beagle’s Galapagos voyage was ‘colonialist’; https://www.dailymail.co.uk/news/article-8702867/Natural-History-museum-review-Charles-Darwin-exhibitions-HMS-Beagle-colonialist.html.

[5] Stoltzfus, A. Why we don’t want another “Synthesis”. Biol Direct 12, 23 (2017). https://doi.org/10.1186/s13062-017-0194-1.

[6] Unifying Biology: The Evolutionary Synthesis and Evolutionary Biology, Vassiliki Betty Smocovitis, Princeton University Press (1997).

[7] Smith, S.E. Is Evolutionary Psychology Possible?. Biol Theory 15, 39–49 (2020). https://doi.org/10.1007/s13752-019-00336-4.

[8] Beauty and the beast? Conceptualizing sex in evolutionary narratives, Erika Lorraine Milam, em Biology and Ideology from Descartes to Dawkins – Editado por DENIS R. ALEXANDER e RONALD L. NUMBERS, Chicago University Press (2010).

[9] Problematization of the believed stativity in sex determination and reproductive behavior, Dezembro de 2018 DOI: 10.13140/RG.2.2.36065.33127.

[10] Bateman (1948): rise and fall of a paradigm?, Thierry Hoquet, Animal Behaviour Volume 164, June 2020, Pages 223-231, DOI: 10.1016/j.anbehav.2019.12.008.

[11] Evolution’s Rainbow: Diversity, Gender, and Sexuality in Nature and People
,Joan Roughgarden, University of California Press (2013).

[12] Theory of Statistics, M. Schervish, Springer Series in Statistics (1997).

[13] Statistical Inference, George Casella e Roger L. Berger, Duxbury Advanced Series (2002).

[14] Why a Philosopher Didn’t Disprove Evolutionary Psychology, Jerry Coyne, 2020: https://www.realclearscience.com/2020/05/20/why_a_philosopher_didn039t_disprove_evolutionary_psychology_290712.html.

[15] Steve Pinker weighs in on the “evolutionary psychology is impossible” paper, Steven Pinker, 2020: https://whyevolutionistrue.com/2020/05/19/pinker-weighs-in-on-the-evolutionary-psychology-is-impossible-paper/.

[16] Mathematical Statistics: Essays on History and Methodology, Johann Pfanzagl, Springer Series in Statistics (2017).

[17] On the dominance ratio. 1922, R A Fisher, PMID: 2185862 DOI: 10.1007/BF02459576.


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